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Arquitetura

UM OLHAR DESPRETENSIOSO SOBRE A ARQUITETURA RELIGIOSA EM DIVERSOS TEMPOS Por Suzete Bessa

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Com a bela e sensível tarefa de dar forma às funções sagradas, os templos religiosos no decorrer da história optaram na maioria das vezes por representações figurativas da relação homem / divino através das artes. A representatividade da arquitetura religiosa, desde seu interior até sua fachada, por muitas vezes optou por revelar a contradição da grandiosidade do divino frente as limitações do humano . O belo como forma de conhecimento de Deus.

Dentro do contexto das comunidades religiosas que patrocinavam as construções das igrejas, a arquitetura dos templos também foi utilizada para representar características como cultura, relações sociais – a igreja dos brancos e dos negros, nível econômico – através de suas dimensões e riqueza dos ornamentos, entre outras.

Segundo Frade (2007), antes mesmo da existência dos templos, elementos naturais eram os responsáveis por abrigar as funções sacras. Das montanhas às árvores, esses eram os abrigos para o lugar do culto e da oração. Com a construção de um edifício que abrigasse essa função, tanto arquitetura, quanto a arte através da escultura e da pintura tornaram-se ferramentas para alcançar aquilo que era transcendente, a vontade humana de alcançar a espiritualidade.

Não há um modelo único de templo para cada religião, mas existem argumentos arquitetônicos que são recorrentes, a luz, a escala, as cores. A arquitetura sacra desenvolveu programas complexos desde a época de Palladio, aprimorou materiais e técnicas construtivas, empregou diferentes geometrias: abóbadas, frontões, arcos, cúpulas… A mudança das práticas religiosas frente à sociedade moderna também modificou a arquitetura das igrejas. As tradições religiosas dos grandes templos suntuosos e figurativos deram espaço às capelas contemporâneas que buscam a espiritualidade de forma mais integra.

Diante disso esse site me convidou a escrever sobre 10 igrejas à minha escolha, que fossem singulares na forma de interpretar a arquitetura religiosa, levando em conta critérios estéticos, mudanças arquitetônicas importantes, uso da luz, interpretação da espiritualidade na arquitetura entre outras coisas. Uma lista desafiadora diante de um tema arquitetônico que se desenvolve desde que o homem passou a construir.

Seria impossível escolher uma lista com 10 igrejas olhando para toda a história da arquitetura sacra sem cometer o “pecado” (Rs) de deixar vários exemplares muito importantes para trás. Por isso essa matéria pretende apresentar 10 igrejas que não se classificam como melhores, ou especiais de alguma forma, mas 10 igrejas que merecem ser conhecidas por sua beleza singular. Aproveite!

Igreja nº 1 Capella Granata_Arquiteto Mario Botta_Austria

A Capella de escala surpreendentemente simples, e com materiais que se destacam no entorno atingiu uma monumentalidade que não pode ser medida pela suntuosidade. O espaço sagrado é indescritível em sua simplicidade, força e beleza. Concluida em 2013, tem sua estrutura em madeira, revestidas com aço nas faces externas. A apropriação da luz através das aberturas em cruz e circular remetem inevitavelmente a Igreja da Luz de Tadao Ando, e é dela que falaremos agora.

Igreja nº 2 Igreja da Luz_Arquiteto Tadao Ando_Japão

Nesta igreja de 1989, Tadao Ando representa a espiritualidade através da luz, elemento fundamental nos projetos do Japonês. O contraponto entre os espaços fechados e as aberturas só ressalta a importância desse elemento dentro do contexto do sagrado e da temática espiritual. A luz é responsável por toda a percepção que o usuário tem do espaço austero em concreto.

Igreja nº 3 Igreja Sainte-Chapelle_Paris

Se você esperava a Catedral de Notre-Dame vai ficar decepcionado. Nossa representante em se tratando de Catedrais Góticas é a Sainte-Chapelle, que data do século XIII. Não existe nenhuma menção direta ao arquiteto, mas o nome de Pierre de Montreuil é associado ao projeto. A igreja foi construída anexa a um palácio e possui duas capelas sobrepostas, uma dedicada aos funcionários do palácio, e a superior à família real. A escala monumental evoca um sentimento de admiração e piedade. A luz através dos vitrais coloridos e emoldurados em pedra ampliam a sensação de monumentalidade.

Igreja nº 4 Capela Privada_Escritório MPGAA_Brasil

A Capela de Arquitetura Contemporânea (2016) na Serra Fluminense te cativa pela simplicidade. Para os olhares desavisados o aço cortein quase passa por madeira na paisagem da fazenda onde foi construída a primeira capela desenvolvida pelo escritório do Arquiteto Miguel Pinto Guimarães. A incorporação da natureza é a maneira através da qual os arquitetos enfrentam a espiritualidade. Os elementos da natureza proporcionam uma sensação de tranquilidade, a utilização da água é responsável pela calma e simplicidade, favorecendo os momentos de reflexão. De certa forma, a água é o elemento essencial do programa da construção em vidro.

Igreja nº 5 Capela Suzhou_Escritório Neri&Hu_China

Um cubo recortado por aberturas diversas, revestido por um elemento que lembra um véu metálico branco. Internamente, a arquitetura se apresenta surpreendentemente diferente. A riqueza dos materiais e detalhes construtivos interferem no modo como o espaço sagrado é percebido e utilizado. Paredes delimitam o percurso e compõe o entorno até a edificação nesse projeto de 2016

Igreja nº 6 Capela Notre-Dame du Haut_Arquiteto Le Corbusier_França

As quatro fachadas da igreja situada na cidade de Ronchamp são representações dos pontos cardeais. A cobertura alta de beirais curvos em concreto armado avança além das paredes em um movimento muito harmonioso. A relação interior e exterior é mantida por meio de aberturas de formas e tamanhos diversos que promovem a iluminação natural do espaço interno. Uma linha de abertura entre o telhado e as paredes favorece a sensação de leveza ao concreto dessa igreja de 1955.

Igreja nº 7 Igreja de São Francisco de Assis_Arquiteto Oscar Niemeyer_Brasil

A igreja da Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte está entre as obras mais reconhecidas do arquiteto e data de 1943. O pequeno edifício exibe estrutura simples, uma releitura da abóbada, e é completada por painéis de Candido Portinari. O altar mor da igreja e os painéis internos também são do artista. Os painéis fazem releituras dos símbolos e comunicam valores e a mensagem dos Evangelhos. As cores utilizadas nos painéis são contrastantes: tonalidades fortes e suaves. A plasticidade das linhas curvas em concreto armado tornou a igreja uma verdadeira pérola no conjunto da Lagoa da Pampulha

Igreja nº 8 Igreja Senhora da Conceição dos Militares_Antônio Fernandes de Matos_ Brasil

A igreja Rococó com data estimada de 1771 apresenta o uso exagerado de ornamentos em seu interior, o que contrasta com a fachada. Nos detalhes arquitetônicos, as cores, mosaicos e pinturas dão à igreja um carater suntuoso. As cores quentes, em especial o dourado, estão presentes.

Igreja nº 9 Basílica de São Pedro_Roma

Viva a Bramante, Michelângelo, Rafael e Bernini! Se o assunto é igreja renascentista não tem pra ninguem! (Rs). A construção requintada, apresenta detalhes e adornos dignos daquela que é considerada a igreja mais importante do catolicismo. Sua cúpula é um elemento de destaque na paisagem de Roma. O edifício começou a ser construído no início dos anos 1500 e só foi terminada em meados dos anos 1600.

Igreja nº 10 Catedral de São Patricio_James Renwick_Nova York

O estilo e layout da arquitetura da igreja é moldado pelas tradições e pelo lugar onde foi construída.  Em estilo neogótico, foi finalizada em 1878 pelo arquiteto James Renwick. A igreja possui em sua fachada duas torres simétricas, e planta em cruz latina, com vitrais que deixam a ornamentação da igreja mais colorida.

Encerramos esse apanhado de exemplares religiosos lembrando da importância de salientar que: qualquer lista que tenha a pretensão de eleger um número específico de itens baseada em questões estéticas ou interesse pessoal já falhou. Entretanto se essa mesma lista servir de inspiração para que o a arquitetura sacra, em qualquer momento da história seja conhecida e reconhecida, já estamos satisfeitos!

 

Referências

ALBERTI, Leon Batista. Da pintura. Tradução de Antonio silveira Mendonça. Campinas: Editora Unicamp, 1999.

Bermudez, Julio. “Transcending Architecture: Contemporary Views on Sacred Space.” The Catholic University of America Press (2015).

BESEN, José Artulino. História da Igreja. Mundo e Missão. 2007

Crompton, Andrew. “The Architecture of Multifaith Spaces: God Leaves the Building.” The Journal of Architecture, Volume 18 Issue 4 (2013).

FRADE, Gabriel. Arquitetura Sagrada no Brasil. Loyola. 2007

Kahn, Louis. and Vassella, Alessandro. (2013). Silence and light. Zurich: Park Books (2013)

McCarter, Robert. (2005). Louis I. Khan. London: Phaidon (2009)

 

Suzete Bessa é Arquiteta e Urbanista graduada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual de Goiás (2009), Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília – UNB (2016) com Bolsa CNPq. Hoje é Professora na Universidade Federal de Goiás – UFG, Regional Goiás. Destaca-se o interesse por teoria e projeto, investigando: arquitetura moderna, Goiânia, patrimônio, patrimônio imaterial, arquitetura contemporânea e o morar brasileiro.

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