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Ao longo das décadas, a relação das cidades com as árvores vem mudando drasticamente, mitigando cada vez mais a presença do verde nos grandes centros urbanos. No entanto, muito tem-se provado que a inserção da vegetação na metrópole é a resposta para diversos problemas como enchentes, poluição do ar, conforto ambiental etc.

Tomando o último exemplo como foco, o uso correto das árvores é capaz de alterar muito beneficamente o conforto ambiental de um espaço. Pode-se sombrear o passeio público, melhorar a qualidade do ar, aumentar a sensação de segurança e bem estar dos pedestres e até mesmo diminuir a temperatura interna de uma edificação.

Ilustração comparando as diferenças de temperatura em superfícies distintas, quando expostas ao sol e quando sombreadas.
Fonte: Árvore, ser tecnológico, 2019.

Apesar de todos esses aspectos positivos, não se pode dizer que uma árvore tem o “poder” de atenuação sonora, sendo esse o principal mito que devemos derrubar aqui. As árvores tem a característica de refletir o som e não de absorve-los. É importante entender essa diferença, pois um som absorvido se finda, total ou parcialmente, no material ao qual entrou em contato, enquanto um som refletido apenas muda a sua rota.

Fonte: Associação Brasileira para a Qualidade Acústica, 2017.

Na prática, isso significa que o uso aleatório de árvores no projeto arquitetônico e paisagístico pode, além de não barrar ruídos, aumentar o nível sonoro recebido nos andares superiores, tendo sido refletido pela folhagem da copa arbórea. Já no pavimento térreo, o ruído não é obstruído pelo tronco das árvores, pois este não faz uma barreira larga o suficiente para bloquear qualquer som.

Silvio Bistafa (2018) aponta que, para o uso de árvores ser efetivo na contenção de ruídos, seria preciso um cinturão verde com no mínimo 15m de largura e 30m de comprimento. Isso representa uma área mínima de 450m² para uma atenuação efetiva do som. A explicação para isso é bem simples. Ao penetrar no cinturão verde, o som refletiria diversas vezes dentro dele, até que, sem encontrar uma saída, perdesse intensidade e se dissipasse.

Ainda assim, existem apontamentos indicando que a presença de árvores, principalmente se bloqueando a visão do usuário da fonte sonora, podem mascarar o ruído. Segundo Souza, Almeida e Bragança (2006), esse é um aspecto subjetivo, pois não há comprovação numérica calculada dessa eficiência. No entanto, a somatória do som do farfalhar das folhas das árvores, com o canto dos pássaros que nelas habitam e com a não visualização da fonte sonora, pode cria uma sensação de conforto do usuário, que está mais relacionada a aspectos psicológicos do que factíveis.

Fonte: Souza, Almeida e Bragança, 2006.

 

Vale ressaltar que um ruído sonoro muito intenso pode danificar, significativamente, a audição de uma pessoa, principalmente se este lhe for exposto por períodos prolongados de tempo. Sendo assim, mascarar o som incômodo, pode parecer satisfatório a priori, mas não é a solução do problema.

Sendo assim, cabe aos arquitetos entender que o paisagismo do projeto, apesar de por vezes gerar sombreamentos benéficos e ambientes agradáveis, dificilmente apresentará uma atenuação sonora efetiva. É hora de reformularmos os discursos sobre conforto ambiental e eficiência energética, abandonando velhas crenças e hábitos, para que possamos projetar uma arquitetura condizente às questões do século XXI.

Referências

ÁRVORE, SER TECNOLÓGICO. A árvore refresca o chão, 2019. Disponível em: <https://arvoresertecnologico.tumblr.com/post/189521045727/quem-gosta-da-sombra-de-%C3%A1rvores-levanta-a-m%C3%A3o>. Acesso em: 23 de abril de 2020.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA A QUALIDADE ACÚSTICA. Manual ProAcústica para classe de ruído das edificações, 2017. Disponível em: <www.proacustica.org.br>. Acesso em: 19 de março de 2020.

BISTAFA, Sylvio R. Acústica aplicada ao controle do ruído. 3.ed. São Paulo: Blucher, 2018. 436 p. ISBN 978-85-212-1283-6.

SOUZA, Léa C. L. de; ALMEIDA, Manuela G. de; BRAÇANÇA, Luíz. Bê-á da Acústica Arquitetônica: Ouvindo a Arquitetura. 1.ed. São Carlos: Edufscar, 2006. 149 p. ISBN 978-85-7600-073-0.

Gustavo F. Diegues é arquiteto e urbanista graduado pelo Centro Universitário FIAM FAAM (São Paulo, 2017) e mestrando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo – USP (2020 – 2022). Desenvolve pesquisa sobre “o desempenho ambiental das tipologias habitacionais em favelas e suas inter-relações com o ambiente externo”; pelo Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética (LABAUT) da FAU USP. Atua pela ONG TETO desenvolvendo trabalho de mapeamento de comunidades carentes desde 2018, tendo assumido como Coordenador de Mapeamento em 2019.

E-mail: arq.gdiegues@gmail.com

Instagram pessoal: https://www.instagram.com/guuhfd/

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